Entre insistir e desistir


As horas tinham se arrastado até aquele momento,  mas então,  não precisava mais de relógios, não havia mais tempo.
Sustentava um sorriso sincero apesar das pernas bambas.
Canções baratas preenchiam o  curto silêncio entre um assunto e outro.                              
Confissões,  conselhos. Ou quase isso.                                      
Cinco taças depois, os olhos se rendiam às lágrimas repetidas,  já tinha mexido em todas as feridas e a verdade doía feito faca na carne.
A rejeição é insuportável.

Passado e futuro lutam bravamente , mas o presente está cansado de assistir.
Não quer jogar a toalha, precisa entrar no ringue (para bater ou perder).

Labaredas congeladas

O mede insiste em se manter imaculadamente próximo, mesmo com a reverberante verdade de que o perigo nunca esteve presente.

Fagulhas de arrependimento pairam sobre o ego.
Faíscas contidas aos poucos transformadas em brasas.
Álgido como há de ser a neve, escolhes então a morte como quem se cobre com seda ao desprezar as vestes rasgadas.

Sê então mórbido para com aquele que não teve nenhum entusiasmo.
A claridade incomoda os dias que parecem despertar de noites ébrias, Com ingratidão os olhos se fecham no mesmo rosto que outrora conteve risos histéricos.
Sigo como quem tenta fugir de si mesmo, em vão.

Parece Asma

Resmungam os pulmões enquanto se inflam para receber o ar que parece ter se perdido ao adentrar as narinas,  chega a doer o peito como se tivesse sofrido um ligeiro impacto,
O coração bombeia oscilante, não mais cultiva o prazer que outrora foi impulso da imaginação.
Me dê um gole d’água ou talvez um soco nas costelas. Me devolva o direito de respirar.


Soluço

Desejos vis inconfessáveis.
Tão longe da razão e a um passo da loucura.
Pensamentos que não se calam, 
sentimentos que não se aquietam.
Cambaleio por entres os dias, esperando que a dor cesse, a matéria apodrece mais lentamente que a alma. 
Vago por entre a estupidez e a ignorância, tenho me tornado igual aqueles que eu detesto, Isso faz de mim pior que qualquer um deles.
Esperando que o tempo me impulsione,
Fecho os olhos, suspendo a respiração.
Nada adianta. O sentido literal não pode de ser alterado.

Quebra Cabeças

Peças que não se encaixam.Sobram algumas mas faltam tantas...

Pedacinhos de desejos (E medos)Pedacinhos de loucura (E sanidade)Pedacinhos de esperança (E dúvidas)

Um milhão de sentimentos.
Episódios reais no sonho mais intenso.
Um milhão de arrependimentos.
Hora errada, lugar errado, certa coisa.

Partículas sóbrias no painel pitoresco.

Componente doce e amargo.
Que da sede, mas mata a fome.

Não!
Não estou partida, quebrada ou algo parecido...
“Asveiss” desmontada, mas só “asveiss”.
São tantas particularidades que nem o tempo revela.
O que parece ser e é o contrario,
E o que não é ,que insiste em se mostrar.
Um mundo todo reservado com pretensões exibicionistas.

É singular.


O mais forte dentro do mais fraco.
A covardia na audácia.
Ego Leonino que se perde no ascendente.

Não pra mim

Ouvi ou vi algumas histórias por aí sobre aquilo que não se pode permitir.
Disseram que é uma dádiva quando eu questionei ser castigo.
Contaram-me que cheirava a flores enquanto me roubava o fôlego.
Prometeram risos estonteantes, mas as batidas do meu coração me ensurdeciam.
Descreveram brisas leves onde eu encontrei tempestades.
E como posso eu sabe-lo “Se tão contrário a si é o mesmo Amor?”

Conspire, Universo

Lá fora há um céu de estrelas cadentes a realizar um pedido já perdido.
Desapareço por entre  ondas quase sinestésicas para emergir onde as possibilidades não se rendem a razão e não me impedem  de semear entre os frutos já em decomposição.
Sem pestanejar a realidade ofende o ego, assalta o pudor e  atém os mais miseráveis sentimentos na  consciência já sobrecarregada.
Vejo um horizonte sem limites refletido na sua pupila dilatada, mas sob meus cílios repousam algumas lágrimas cálidas e incrédulas, que ardem  por desejar.
Seca me a boca,  tudo sobre meu querer já foi dito e respondido com todas as letras na recusa em cada olhar.

A fantasia que não se alimenta...
...e os motivos que se contradizem enquanto emendam a perfeição dilacerada à essa constante hesitação.

Sobre ônibus e pontuações

Observo o céu pela janela embaçada, entre os rabiscos que fiz vejo infinitos tons escuros manchados por raios claros e profundos, a chuva cai devagar e os fones no ouvido trocam os trovões por um melodia envolvente e misteriosa,  trilha sonora perfeita para um possível programa mal intencionado, mas não é o caso.
Ao meu lado, a melhor companhia que eu podia ter; minha aflorada e desinibida imaginação, ora ocupada com as sombras no teto, ora escrevendo cartas para quem não sabe ler, nem tão focada, muito menos vigilante.
Fabrico motivos a me atordoar e tento me livrar deles com poucas lembranças que guardo entre tantas fantasias.
Fecho os olhos e sorrio quando minha pele arrepia, assim que os abro, já não lembro a razão.
Me desfaço para tentar entender e tento não mais pensar nisso.
Viajar nunca é só percorrer caminhos, essas poltronas desconfortáveis são ótimos divãs.
Estrada é terapia.
Viajar é ajeitar as palavras, rasurar, experimentar sinônimos e descartar antônimos.
Levo a mala cheia de interrogações e desembarco cheia de reticências, mudo de lugar algumas vírgulas e entre isso e aquilo acomodo minhas certezas.
O que já era indefinido volta em outro idioma, o desejo só aumenta, a razão idem.


Eu, eu mesma e as palavras



E numa tarde quente, me vi fugindo de rimas vulgares a narrar o duelo sentimentalista que me faz disparar o peito.
Ops!
Passei tanto tempo “sem sentir” que mal recordava dessa condição.
De um lado o apego a razão, bravejando sobre como isso parece banal.
Do outro a vontade de quebrar a cara, implorando afeto e consideração.

Diante um céu de possibilidades mais coerentes, pára o tempo enquanto eu me lembro de apreciar a loucura de pouco entender  sobre quem sou  e ainda assim deixar que ansiedade de saber como realizar cada desejo tome conta dos meus pensamentos e salte para tela como insetos atraídos pela luz.

Nós

Não se preocupe, guarde seu medo e saiba que eu tenho coragem por nós dois.
Quando chegar a noite, contaremos nosso segredo às estrelas, mas não a todas e nem todos os detalhes.
E se alguma cair, ah, que nos desejamos cada vez mais.
Um dia lembraremos disso: jovens famintos, de ego inflado e desejos inflamáveis.
E não haverá mais certo ou errado. E não haverá mais medo.

(Nem tempo)
(Nem senso)