Eu sou Alice


 

Algumas princesas colecionam sapos em vitrines, sabem de cor que os príncipes são enjoativamente doces e fazem da sua torre um lugar encantado.
Algumas gritam com os espelhos e se tocam sob os lençóis.
Outras abafam o choro em travesseiros coloridos, mas não desistem de tentar.
Elas perdem a razão e não dão a mínima pro trono.

Hipocondria


Já morri quase dez mil vezes e continuo aqui;

Cansada de contar cada ocasião heróica que me envolvi sem querer;

Sem notar mudanças ao mesmo tempo em que sou outra a cada amanhecer.

O ar arde em meus pulmões e as mentiras reviram em minha mente.

Os comprimidos dançam em minha língua e se dissolvem antes que eu me lembre o porquê de tantas cápsulas.

Os amarelos fazem meu coração disparar, mas deixa os músculos alheios a cobrança da consciência.

Os azuis me levam para onde eu quero estar, e o único inconveniente são as vozes insistindo que eles me farão mal algum dia, dia esse que ninguém sabe se vai chegar.

Aqueles begezinhos são para corrigir um deslize da natureza.

Tem uns pequeninos geralmente cor de rosa, que são profiláticos, evitam dor de cabeça causada por serezinhos barulhentos, esses eu quase não ingiro, não me caem bem.

As drágeas cor de laranja aliviam embora temporariamente a pressão que força minha cara feia.

Já os branquinhos, há para todos os gostos; pequeninos indicados para viagens no seu sentido literal, mas para mim metafórico. Os que têm que ser partidos caso eu queira levantar no outro dia. Tem também aqueles sonsos, mas que dão conta das lagartixas que devoram meu estomago.

Nem vou falar das cápsulas coloridas que promete me deixar bonita, porém o que enxuga são meus bolsos.

Sempre que encontro um que seja realmente avassalador como as gotinhas envoltas em uma misteriosa cinta negra, eles dão um jeito de me tomarem ou controlam a posologia e eu não posso aproveitar as reações adversas.

Distante


A cidade está deserta,

As curvas já não são perigosas.

A loucura se choca com a necessidade de estar sóbrio.

Foram apenas algumas doses, mas podia ter sido a garrafa toda.

O copo esteve meio cheio, como a muito não se encontrava.

Para isso foi preciso estar só.

Eis a verdade; acabou.

Cobaia


Vamos falar sobre algo que te arranque sorrisos:
Alguma reputação, qualquer sacanagem ou injúria banal.
Isso te deixa feliz?
A mim não.
De onde venho a felicidade é mantida no escuro.
O contentamento vem conforme as luzes se apagam e as estrelas se acendem.
Sou uma estranha aqui
Minha valentia foi inventada
Mas eles mentem o tempo todo
Ainda que minha alma esteja corrompida
É preciso andar na linha
Eu não finjo ( Mas poderia )
Deveria calar a boca e ouvir o que eles tem a dizer
Ou esperar que o céu desabe sobre nós
E não haja mais opções.
Culpem a posição do sol no momento em que nasci,
Condenem as fases da lua em que eu me escondo,
Compare-me com aqueles que me puseram no mundo.
Façam o que quiser; eu não dou à mínima pro que pensam, falam ou deixam de sentir.
Educação?
Guardo para os momentos importantes.
Tolerância?
Não sei o que é.
Boa vontade?
Só se me convier.
Os frutos da minha colheita são amargos e quase não me sobrou amigos para compartilhá-los.
São essas rasuras que me aliviam.
Escrevo para não esquecer; não faço poema, não anseio agradar.

Genes compartilhados

Tamanha a ira que provoca é a compaixão que deriva,
Socos que pairaram no ar enquanto o tempo se esgotava,
Carinhos invisíveis guardados em segredo e mentiras jogadas na cara;
Tão insuportavelmente distintos e cheios de si quanto dois irmãos podem ser.
Submerso, talvez num futuro distante, a importância será recíproca,
Ou seguirão os dias com o que sobrou da infância que tivemos.
Ele: Um carateca, craque em me deixar pra escanteio.
Eu: Só carente e preocupada.

Subsolo

Querer.
Apenas querer.
Sem nenhum manifesto.
Estagnada na zona de conforto,
Convencendo os pensamentos a se conterem.
Atrás da porta abafo meus suspiros,
Dentro do peito, acumulo esses tremores.
Da boca para fora sussurro palavras frias.
Não passam de idéias improváveis.

Entre Dardos e Cabos

Em minha volta, as paredes deviam estar rabiscadas, de vermelho quem sabe?
Na estante, os retratos deviam ser em outros cenários, e variar as figuras com certeza.
Minhas aventuras estão guardadas no armário, arquivadas por séries e autores;
Uma t.v. sem antena literalmente abandonada, assiste a minha decadência sem censura;
Há objetos enfileirados, em cada um, há um pouco de mim.
O espelho na moldura é incapaz de refletir a sujeira escondida no tapete.
Aqui dentro é o lá fora da outra prisão.

Selos

Passo os dias fazendo as malas, indo a lugar nenhum;
Despeço sorrateiramente e recolho meus pensamentos para que não sintam minha falta;
Passam por mim conduções lotadas de passageiros sem bagagens.
Eles apenas foram;
Enquanto eu não decidi por qual caminho seguir.

Porta-Voz

Ah, o amor, pobre coitado.
O deixem em paz.
Permita que ele escolha quando, a quem e como lisonjear.
Pare de sufocar uns aos outros em seu nome.
Não o culpe por suas fraquezas.
Quem disse que o amor exige cuidados?
Ele que sobreviva. Se virando, sem que vocês o dobrem em coraçõezinhos tortos.
O amor é auto-suficiente.
Mas implora para que não o expliquem ou o intervenham a torto e a direito por ai.

(Re) Pouso

Já vivi como se existir não importasse.
Outrora valia a pena soltar sorrisos efêmeros, embriagados e dissimulados.
O que eu era não cabe aqui.
Mas me falta o que eu tinha;
Amigos de mentirinha que continuam de verdade entre si.
Me bani do bando, voei baixo enquanto eles seguem viagem.