Conspire, Universo

Lá fora há um céu de estrelas cadentes a realizar um pedido já perdido.
Desapareço por entre  ondas quase sinestésicas para emergir onde as possibilidades não se rendem a razão e não me impedem  de semear entre os frutos já em decomposição.
Sem pestanejar a realidade ofende o ego, assalta o pudor e  atém os mais miseráveis sentimentos na  consciência já sobrecarregada.
Vejo um horizonte sem limites refletido na sua pupila dilatada, mas sob meus cílios repousam algumas lágrimas cálidas e incrédulas, que ardem  por desejar.
Seca me a boca,  tudo sobre meu querer já foi dito e respondido com todas as letras na recusa em cada olhar.

A fantasia que não se alimenta...
...e os motivos que se contradizem enquanto emendam a perfeição dilacerada à essa constante hesitação.

Sobre ônibus e pontuações

Observo o céu pela janela embaçada, entre os rabiscos que fiz vejo infinitos tons escuros manchados por raios claros e profundos, a chuva cai devagar e os fones no ouvido trocam os trovões por um melodia envolvente e misteriosa,  trilha sonora perfeita para um possível programa mal intencionado, mas não é o caso.
Ao meu lado, a melhor companhia que eu podia ter; minha aflorada e desinibida imaginação, ora ocupada com as sombras no teto, ora escrevendo cartas para quem não sabe ler, nem tão focada, muito menos vigilante.
Fabrico motivos a me atordoar e tento me livrar deles com poucas lembranças que guardo entre tantas fantasias.
Fecho os olhos e sorrio quando minha pele arrepia, assim que os abro, já não lembro a razão.
Me desfaço para tentar entender e tento não mais pensar nisso.
Viajar nunca é só percorrer caminhos, essas poltronas desconfortáveis são ótimos divãs.
Estrada é terapia.
Viajar é ajeitar as palavras, rasurar, experimentar sinônimos e descartar antônimos.
Levo a mala cheia de interrogações e desembarco cheia de reticências, mudo de lugar algumas vírgulas e entre isso e aquilo acomodo minhas certezas.
O que já era indefinido volta em outro idioma, o desejo só aumenta, a razão idem.


Eu, eu mesma e as palavras



E numa tarde quente, me vi fugindo de rimas vulgares a narrar o duelo sentimentalista que me faz disparar o peito.
Ops!
Passei tanto tempo “sem sentir” que mal recordava dessa condição.
De um lado o apego a razão, bravejando sobre como isso parece banal.
Do outro a vontade de quebrar a cara, implorando afeto e consideração.

Diante um céu de possibilidades mais coerentes, pára o tempo enquanto eu me lembro de apreciar a loucura de pouco entender  sobre quem sou  e ainda assim deixar que ansiedade de saber como realizar cada desejo tome conta dos meus pensamentos e salte para tela como insetos atraídos pela luz.

Nós

Não se preocupe, guarde seu medo e saiba que eu tenho coragem por nós dois.
Quando chegar a noite, contaremos nosso segredo às estrelas, mas não a todas e nem todos os detalhes.
E se alguma cair, ah, que nos desejamos cada vez mais.
Um dia lembraremos disso: jovens famintos, de ego inflado e desejos inflamáveis.
E não haverá mais certo ou errado. E não haverá mais medo.

(Nem tempo)
(Nem senso)


Guerra


Escapa-me a razão em cada vã tentativa de controlá-la.
A terra gira sob meus pés enquanto o universo desaba sobre meus ombros e nada pesa mais do que a consciência de que eu estou cada vez mais envolvida, mesmo sem saber do que realmente se trata essa situação.
Não há saída que satisfaça o desejo sagaz que toma conta do meu corpo sem desordenar  a quase atingida busca pelo equilíbrio mental.
Se ao menos houvessem palavras que explicassem, tamanha incerteza logo se renderia a um dos dois lado da força e seja lá qual fosse, desde que o fizesse com clareza, inclinaria para onde o vento soprasse e me agradaria dos assovios leves quando vez ou outra a brisa sibilasse na contramão.


                                                   

Não tão feliz



Ah aquele sorriso que me desafia, me fazendo pensar se é felicidade ou ironia.
Questiona-me sobre os mais vis conceitos e contradiz toda lembrança em cada novo gesto.
Rasga-me feito papel rabiscado, amassado no bolso molhado pelo suor dos beijos não dados.
Regras inventadas  e que já  não podem ser quebradas.
Se era amor, eu já nem sei.
Se é fantasia, jamais saberei.
Por que se não se pode falar, de nada adianta amar.

Feito tecido de algodão



Me viu juntar todas as pontas sem nós que ainda restava.
Me viu acenar sem saber se me despedia ou se te chamava.
Me viu cair feito chuva a inundar seu chão.
E agora, não me importo se seus olhos quando me veem,  ardem ou não.

Tão longe quanto puder alcançar


Abra os olhos e me diga o que está acontecendo
Conte-me sobre os monstros sufocados no armario, para onde eles irão quando não sobrar mais nada?
Será fácil se você puder deixar tudo pra trás.
Sem pensar, sem exitar.
Sinta a coragem espalhar pelas suas veias e venha comigo.
Mantenho seu peito aquecido em troca de uma canção quando eu adormecer,
Vamos sussurrar palavrões quando estivermos tristes e rir quando passar.
Não precisamos de nada disso, podemos sentir o fogo sem nos queimar.

Sobre ele


Havia de ser dito sobre aquilo que ficou; não as feridas abertas pela teimosia de quando em quando e nem mesmo a teima em permanecer.

As palavras deviam contar os tantos sabores descobertos entre algumas amarguras.
Deviam mensurar os olhos que se encontram em entendimento quando o diálogo precisa ser evitado.

Também tinham de dizer sobre a importância não dada ao resto do mundo, que aqui e ali é sempre condenada.

Não podendo esquecer, é claro, de quão cúmplices se tornaram, tanto a ponto de levantarem suspeitas por entre aqueles que até tentam, mas jamais, nem por um breve instante será capaz de entender sobre isso que não da pra falar.

"Tão Perto e Tão Distante"


É voraz o anseio pela pele tua que se acanha entre tantas fantasias e memórias vagas,

Isolo-me, perco a astúcia e por aí me chamam de estranha.

O ruído do seu sorriso escapulido entre os cantos da boca doce, o cheiro da sua nuca suada impregnado na minha mão assanhada, seus olhos cerrados escondendo segredos cínicos... Já quase não recordo mais, minúcias dilaceradas perdidas entre as promessas que o tempo não pôde cumprir.

Tomada por clichês, sigo adiante, incerta, inquieta, indecisa.