Nós

Não se preocupe, guarde seu medo e saiba que eu tenho coragem por nós dois.
Quando chegar a noite, contaremos nosso segredo às estrelas, mas não a todas e nem todos os detalhes.
E se alguma cair, ah, que nos desejamos cada vez mais.
Um dia lembraremos disso: jovens famintos, de ego inflado e desejos inflamáveis.
E não haverá mais certo ou errado. E não haverá mais medo.

(Nem tempo)
(Nem senso)


Guerra


Escapa-me a razão em cada vã tentativa de controlá-la.
A terra gira sob meus pés enquanto o universo desaba sobre meus ombros e nada pesa mais do que a consciência de que eu estou cada vez mais envolvida, mesmo sem saber do que realmente se trata essa situação.
Não há saída que satisfaça o desejo sagaz que toma conta do meu corpo sem desordenar  a quase atingida busca pelo equilíbrio mental.
Se ao menos houvessem palavras que explicassem, tamanha incerteza logo se renderia a um dos dois lado da força e seja lá qual fosse, desde que o fizesse com clareza, inclinaria para onde o vento soprasse e me agradaria dos assovios leves quando vez ou outra a brisa sibilasse na contramão.


                                                   

Não tão feliz



Ah aquele sorriso que me desafia, me fazendo pensar se é felicidade ou ironia.
Questiona-me sobre os mais vis conceitos e contradiz toda lembrança em cada novo gesto.
Rasga-me feito papel rabiscado, amassado no bolso molhado pelo suor dos beijos não dados.
Regras inventadas  e que já  não podem ser quebradas.
Se era amor, eu já nem sei.
Se é fantasia, jamais saberei.
Por que se não se pode falar, de nada adianta amar.

Feito tecido de algodão



Me viu juntar todas as pontas sem nós que ainda restava.
Me viu acenar sem saber se me despedia ou se te chamava.
Me viu cair feito chuva a inundar seu chão.
E agora, não me importo se seus olhos quando me veem,  ardem ou não.

Tão longe quanto puder alcançar


Abra os olhos e me diga o que está acontecendo
Conte-me sobre os monstros sufocados no armario, para onde eles irão quando não sobrar mais nada?
Será fácil se você puder deixar tudo pra trás.
Sem pensar, sem exitar.
Sinta a coragem espalhar pelas suas veias e venha comigo.
Mantenho seu peito aquecido em troca de uma canção quando eu adormecer,
Vamos sussurrar palavrões quando estivermos tristes e rir quando passar.
Não precisamos de nada disso, podemos sentir o fogo sem nos queimar.

Sobre ele


Havia de ser dito sobre aquilo que ficou; não as feridas abertas pela teimosia de quando em quando e nem mesmo a teima em permanecer.

As palavras deviam contar os tantos sabores descobertos entre algumas amarguras.
Deviam mensurar os olhos que se encontram em entendimento quando o diálogo precisa ser evitado.

Também tinham de dizer sobre a importância não dada ao resto do mundo, que aqui e ali é sempre condenada.

Não podendo esquecer, é claro, de quão cúmplices se tornaram, tanto a ponto de levantarem suspeitas por entre aqueles que até tentam, mas jamais, nem por um breve instante será capaz de entender sobre isso que não da pra falar.

"Tão Perto e Tão Distante"


É voraz o anseio pela pele tua que se acanha entre tantas fantasias e memórias vagas,

Isolo-me, perco a astúcia e por aí me chamam de estranha.

O ruído do seu sorriso escapulido entre os cantos da boca doce, o cheiro da sua nuca suada impregnado na minha mão assanhada, seus olhos cerrados escondendo segredos cínicos... Já quase não recordo mais, minúcias dilaceradas perdidas entre as promessas que o tempo não pôde cumprir.

Tomada por clichês, sigo adiante, incerta, inquieta, indecisa.

Suposições

Confunde meu grito, descarta-me.
Faz da esperança, meu ponto fraco.
Responde ao acaso em negação.
Faz queimar no peito, o furor de não ter sido.
Arde nos lábios, a confissão que sei de cor.
Se retribui, hesita.
Se espera, esconde.

Eu sou Alice


 

Algumas princesas colecionam sapos em vitrines, sabem de cor que os príncipes são enjoativamente doces e fazem da sua torre um lugar encantado.
Algumas gritam com os espelhos e se tocam sob os lençóis.
Outras abafam o choro em travesseiros coloridos, mas não desistem de tentar.
Elas perdem a razão e não dão a mínima pro trono.

Hipocondria


Já morri quase dez mil vezes e continuo aqui;

Cansada de contar cada ocasião heróica que me envolvi sem querer;

Sem notar mudanças ao mesmo tempo em que sou outra a cada amanhecer.

O ar arde em meus pulmões e as mentiras reviram em minha mente.

Os comprimidos dançam em minha língua e se dissolvem antes que eu me lembre o porquê de tantas cápsulas.

Os amarelos fazem meu coração disparar, mas deixa os músculos alheios a cobrança da consciência.

Os azuis me levam para onde eu quero estar, e o único inconveniente são as vozes insistindo que eles me farão mal algum dia, dia esse que ninguém sabe se vai chegar.

Aqueles begezinhos são para corrigir um deslize da natureza.

Tem uns pequeninos geralmente cor de rosa, que são profiláticos, evitam dor de cabeça causada por serezinhos barulhentos, esses eu quase não ingiro, não me caem bem.

As drágeas cor de laranja aliviam embora temporariamente a pressão que força minha cara feia.

Já os branquinhos, há para todos os gostos; pequeninos indicados para viagens no seu sentido literal, mas para mim metafórico. Os que têm que ser partidos caso eu queira levantar no outro dia. Tem também aqueles sonsos, mas que dão conta das lagartixas que devoram meu estomago.

Nem vou falar das cápsulas coloridas que promete me deixar bonita, porém o que enxuga são meus bolsos.

Sempre que encontro um que seja realmente avassalador como as gotinhas envoltas em uma misteriosa cinta negra, eles dão um jeito de me tomarem ou controlam a posologia e eu não posso aproveitar as reações adversas.