Genes compartilhados

Tamanha a ira que provoca é a compaixão que deriva,
Socos que pairaram no ar enquanto o tempo se esgotava,
Carinhos invisíveis guardados em segredo e mentiras jogadas na cara;
Tão insuportavelmente distintos e cheios de si quanto dois irmãos podem ser.
Submerso, talvez num futuro distante, a importância será recíproca,
Ou seguirão os dias com o que sobrou da infância que tivemos.
Ele: Um carateca, craque em me deixar pra escanteio.
Eu: Só carente e preocupada.

Subsolo

Querer.
Apenas querer.
Sem nenhum manifesto.
Estagnada na zona de conforto,
Convencendo os pensamentos a se conterem.
Atrás da porta abafo meus suspiros,
Dentro do peito, acumulo esses tremores.
Da boca para fora sussurro palavras frias.
Não passam de idéias improváveis.

Entre Dardos e Cabos

Em minha volta, as paredes deviam estar rabiscadas, de vermelho quem sabe?
Na estante, os retratos deviam ser em outros cenários, e variar as figuras com certeza.
Minhas aventuras estão guardadas no armário, arquivadas por séries e autores;
Uma t.v. sem antena literalmente abandonada, assiste a minha decadência sem censura;
Há objetos enfileirados, em cada um, há um pouco de mim.
O espelho na moldura é incapaz de refletir a sujeira escondida no tapete.
Aqui dentro é o lá fora da outra prisão.

Selos

Passo os dias fazendo as malas, indo a lugar nenhum;
Despeço sorrateiramente e recolho meus pensamentos para que não sintam minha falta;
Passam por mim conduções lotadas de passageiros sem bagagens.
Eles apenas foram;
Enquanto eu não decidi por qual caminho seguir.

Porta-Voz

Ah, o amor, pobre coitado.
O deixem em paz.
Permita que ele escolha quando, a quem e como lisonjear.
Pare de sufocar uns aos outros em seu nome.
Não o culpe por suas fraquezas.
Quem disse que o amor exige cuidados?
Ele que sobreviva. Se virando, sem que vocês o dobrem em coraçõezinhos tortos.
O amor é auto-suficiente.
Mas implora para que não o expliquem ou o intervenham a torto e a direito por ai.

(Re) Pouso

Já vivi como se existir não importasse.
Outrora valia a pena soltar sorrisos efêmeros, embriagados e dissimulados.
O que eu era não cabe aqui.
Mas me falta o que eu tinha;
Amigos de mentirinha que continuam de verdade entre si.
Me bani do bando, voei baixo enquanto eles seguem viagem.

Amor é outra coisa...


O ridículo da vida não é intensidade com que se deseja algo, é a magia que usa para conquistá-lo.
É o momento condenado ao fim fantasiado de promessas.
É ridículo desfrutar da precisão de combustíveis para a fantasia.
É ter tudo ao alcance das mãos e optar por não ter certeza sem que haja brecha para arrependimento.
Permita se estar além da cordialidade, onde os olhos tecem um dialeto de impossível tradução, onde o desejo pelo toque é contentado pela voz.
Viva a poesia, deixe que “seja eterno enquanto dure” no infinito da sua imaginação.

Abundância.

O amor corresponde às expectativas e o amado tende a frustrá-lo, as ressalvas toam comprovar.
Enquanto é apenas uma cobiça, pode ser o que quiser; ilimitado, alucinante...
Aquilo que se deseja não é o objeto, é sentimento que pulsa intensamente sem que haja permissão.
Não é abstrair da pele e se contentar com ternuras. É se alimentar daquilo que convir.
Orno cada um dos meus sonhos com os detalhes mais improváveis que minha imaginação consegue proporcionar, e ali, num mundo só meu, eles são reais. Até que me apeteço por algo ainda mais promissor e faço exatamente igual.
Crio vínculos mais fortes que sangue, as pessoas não me angustiam por não acompanharem minha audácia, e não me arrependo.
Vez ou outra, saio da rotina e permito me aborrecer, uma questão de escala comparativa, nada mais.
Ainda assim, vivo. E vivo intensamente tudo o que eu sou e viverei aquilo que hei de ser. E hei de ser muito, tudo o que nunca fui, por que amor é simplesmente a busca do que te falta e eu ainda não tenho nada.

Não Minhas

Era uma vez, uma menina romântica que fantasia demais suas paixões e faz parte de um cenário incomum; ela vive entre seres vivos que se matam todas as noites, confinada no mundo das ilusões, no qual é permitido ser onde não está.
Ela sonha. Sonha alto e chora ao acordar. O pesadelo é abrir os olhos e sentir os ponteiros cravando lhe a pele lentamente enquanto a lua não volta.
 Oponente do sol, é ela o centro do universo.
 Semeia todos os dias seu invisível campo de morangos que jamais amadurecerão.
 Ela não se preocupa. Para que pressa, se o tempo nunca sai do lugar? Ela finge. Faz que não vê. Dissimula seus sentimentos e palavras.
 Uma boneca de pano, coração de lata e cabeça de vento.

Eu Não Tenho Amigos

Caminho a pé. Sabendo disso, não me importa o caminho.
Tenho comigo boa companhia; Afago para meu ego, combustível para minha esperança,
E o melhor par de ouvidos que já encontrei por ai.  Este que esbarra na exatidão dos meus anseios, suprindo, ainda que de mansinho, a inexplicável necessidade de andar na contramão que desde sempre trago nos pés. Excluo-me onde não caibo.
E ultimamente não tenho cabido em lugar algum...
 ...A não ser dentro da contradição dos meus pensamentos.